9 de julho de 2005

REVIEW
Before... Everything Else

O incauto visitante que observa as fotos da direita, correspondentes aos dois filmes aqui em análise, deve estar agora a pensar: "Pronto... querem ver que aquele fanchono agora também critica comédias românticas?"

A verdade, caro estereotipador(a), é que esta dupla obra sobre a simplicidade das emoções humanas merece todo o meu apreço e, por uma vez, a (tentativa de) crítica sem recorrer ao linguajar brejeiro que flui destes dedos, qual muco traqueal viscoso que invade as vias respiratórias em dias de expectoração.

Before Sunrise conta a história de Jesse e Celine. Ambos viajam numa espécie de InterRail pela Europa. Ele é um jovem americano à descoberta da Europa, algo pretencioso, mas inteligente e com uma subtil capacidade de saber ouvir. Ela é uma estudante Francesa com uma rara sensibilidade e um doce coração. Um encontro casual no comboio proporciona uma conversa e ambos acabam por sair em Áustria, com o intuito de conhecerem melhor a cidade e conhecerem-se mutuamente.

É uma sinopse que não dá muito a entender, admito. Mas que se lixe. O filme é lindo e pronto. Devora-se de uma ponta a outra com sofreguidão e interesse. Para uns, será o filme romântico por excelência. Para outros, será o mais perfeito estudo sobre a complexidade e, ao mesmo tempo, simplicidade da relação humana entre seres do sexo oposto. Richard Linklater, o realizador, idealizou um argumento de sonho, que prima pela extrema qualidade e realidade dos diálogos, que faz suspirar o solteirão que mora em cada um de nós por uma história de amor com esta força, simpicidade e pujança.

Não esperem acção, suspense ou choradinhos. Isto é uma história adulta, sóbria, séria e comovente q.b., a ajustar à realidade de cada um de nós. É o ensaio definitivo sobre o processo de conhecimento inter-sexos, com uma progressiva e cuidada cumplicidade entre James e Celine (brilhantemente interpretados por Ethan Hawke e Julie Delpy), que se torna numa noite única e irrepetível e no romance que todos nós gostaríamos de ter vivido.



O segundo filme, com os mesmos protagonistas, retoma a história 9 anos depois dos acontecimentos do primeiro filme. Após a inesquecível noite de paixão, James e Celine nunca mais se viram, por desencontros do destino e por receios mútuos. Reencontram-se numa livraria em Paris, quando James está numa palestra para promover o seu livro.

E, por incrível que pareça, este Before Sunset consegue ser melhor do que o primeiro. Quando se poderia temer que Richard Linklater (novamente a realizar) pudesse cair na tentação de repetir a fórmula de sucesso do primeiro filme, ele reinventa-o. Dá-lhe aquele twist irresistível que nos volta a agarrar durante hora e tal. E fá-lo de uma forma naturalíssima. Através do reencontro de expressões, gostos e comunhão de pensamentos entre James e Celine. A ausência de 9 anos provocou um vazio entre ambos. No entanto, existe desde o primeiro momento uma empatia entre os protagonistas e uma vontade natural de encurtar o fosso. E o filme dedica-se a isso. A redescobrir, passado 9 anos, e no bucólico ambiente Parisiense, toda a imensa e inacabável química que une este casal peculiar. E quão agradável pode ser o prazer da redescoberta...

O melhor: Os protagonistas, e a evidente química entre ambos, on e off-the-screen. O diálogo. O interesse do mesmo. O realismo e simplicidade da história. Não cair em sentimentalismos exacerbados em nenhum momento. Áustria e Paris. A roda gigante. Enfim, quase tudo e quase todos os pequenos detalhes.

O pior: Não haver mais filmes como estes.

Veredicto: Para os amantes de "comédias românticas", fujam disto como se fosse a peste!. Ide antes ver a "Bridget-Jones-pareço-a-porra-do-boneco-Michelin". Para os apreciadores de filmes adultos (e não estou a falar de porno), que acham que a história perfeita de amor ainda não tinha sido contada... ei-la aqui. Fantástico!

Classificação: 9.5

3 comentários:

Luis Monteiro disse...

Já tinhamos tido esta conversa há pouco tempo.
O primeiro é sem sombra de dúvida um dos melhores (senão o melhor) "teen" movie que alguma vez foi feito. Uso o termo "teen", não no sentido perjurativo, mas sim no sentido de se tratar de um filme q retrata de forma brilhantes as coordenadas adjacentes à adolescência.
O segundo acho-o mais maduro, mas sem dúvida alguma que se torna o complemento mais-que-necessário do seu predecessor.
Resumindo - e o que realmente interessa - é que são dois grandes filmes sobre o ser humano e as relações, realizados sob um ponto de vista optimista, mas com um toque de real que nos transmite esperança... E a vida sem esperança, não o é!
(oh edgar, não tou a ser somente racionalista ;) )
Continuação do bom trabalho e, Hugo, sejas bem vindo!!!

Sandra disse...

Olhem eu vi o primeiro com uma grasnde amiga k é fã do Ethan, (edgar em casa da anoca metal_lolita) era eu uma jovem com pouco mais de 16 anos, e devo dizer k é um filme demasiadamente para uma rapariga na adolescência. Mas adorei, fiquei agarrada do principio ao fim...e o melhor á k ao rever o filme eu consigo identificar-me em algumas situações..

Beijos a tds e já agora para o Hugo.

Edgar disse...

É como te digo, Luís... O teu racionalismo começa quando dizes que isto é um "teen-movie" :)