21 de setembro de 2005

REVIEW
The 25th Hour

Ano: 2002
Realizador: Spike Lee
Actores: Edward Norton, Rosario Dawson, Phillip Seymour Hoffman


Spike Lee é um realizador detestado pela maioria. Talvez porque os seus filmes têm uma mensagem demarcadamente racial, a verdade é que as obras de Lee são sempre vistas como filmes de minorias, pela mensagem e pelos protagonistas. Já foi assim em Jungle Fever e no esquecido e muito bom Clockers.

Aqui, Spike Lee muda radicalmente de registo e imortaliza um fabuloso filme, que já foi muito bem descrito por alguém, como sendo "o melhor filme sobre o 11 de Setembro... mas que não fala do 11 de Setembro".
O filme retrata a história de Monty Brogan, condenado a uma pena de 7 anos após ter sido pressionado pela Brigada Anti-Droga, e da avaliação introspectiva da sua vida nas 24 horas de liberdade que lhe restam, com a ajuda dos amigos, da namorada e do pai.

E é aqui que o filme diverge dos padrões gerais que regem a maioria do cinema. Apoiado, mais uma vez, num fenomenal registo de Edward Norton, Monty passa o santo filme a avaliar e a reviver todos os eventos que conduziram à sua prisão, numa espiral melancólico-depressiva. Lee conduz esta espiral como uma marionete, não fazendo com que nos arrastemos na dita, mas acompanhando com supremo entusiasmo a caminhada de Monty rumo à 25ª hora, guiados pela comichão que nos assola de que algo sucederá no final do filme, uma redenção, um acto extraordinário... enfim, algo que "salve" o filme da espiral obscura que o parece levar irremediavelmente ao fundo do poço psicológico. Mas a sobrenaturalidade de um acto desses desvanece-se no final mais ou menos lógico, realista e menos fantasiado, que retiraria poder dramático a esta grande obra de Spike Lee.

Mais uma vez, Edward Norton está genial e soberbo, emprestando a Monty uma densidade psicológica absolutamente extraordinária, que se arrasta num ritmo divinalmente angustiado e pesaroso. O mesmo é um reflexo do estado de espírito da América pós-11 de Setembro, manifestado ao longo do filme através de vários clichés subtilmente introduzidos.
O resto do elenco é delicioso, e compõe na perfeição um cocktail de amigos com formas de pensar e "modus vivendi" bem distintos. Destaque para Phillip Seymour Hoffman (que veremos brevemente no ansiado Capote), no papel de um profe com tendência para enroscar-se com alunas bem mais novas que ele.
A cinematografia e a música acompanham a toada do elenco, com predominância dos ocres e dos cinzentos, a darem um tom arrastado e desabusado à trama.

Spike Lee acertou em cheio com este. É um jackpot absoluto.

O melhor: O discurso de Edward Norton em frente ao espelho do WC.

O pior: Não obstante os esforços de Lee, pode ser muito pesado para alguns.

Classificação: 9/10

1 comentário:

Sandra disse...

Eu vi o filme, e sinceramente não consegui estar inteiramente ligada á tela. Gostei das "Mensagens" transmitidas, mas não como foram passadas para mim. é um filme com muito dialogo, com muitas verdades que deveriam ser mais ouvidas.

O que salva o filme é o dialogo do Edward no espelho como disses-te, e o fim que demonstra que uma simples escolha, entre saída da autoestrada ou seguir o caminho para a prisão,poderá mudar o curso de uma vida...e mantén-se essa expectativa até ao fim.

Jokas