1 de novembro de 2005

REVIEW
Cidade de Deus

Image hosted by Photobucket.comAno: 2002
Realizador: Fernando Meirelles
Actores: Alexandre Rodrigues, Leandro Firmino

No primeiro filme brasileiro de que recordo a tomar de assalto Hollywood e o mundo, Fernando Meirelles traz-nos aqui a história crua e visceral da vida nas favelas brasileiras, centrada à volta de "Busca-Pé", um jovem que cresce imerso num universo de drogas, corrupção e morte, mas cujo maior sonho é mesmo ser fotógrafo profissional.

No início, relata a história do seu irmão mais velho, pertença de um pequeno e "inocente" gang, chamado "Tender Trio", que se dedica a assaltos menores, sempre acompanhados por um pequeno rapaz, chamado "Dadinho". Um dia, num assalto ao motel em que era suposto o "Dadinho" ficar cá fora como vigia, este cansou-se de esperar e revelou ao mundo o quão avariado dos cornos era, iniciando uma carnificina sem paralelo no referido motel, varrendo a tiro tudo o que era p**a, chulo e cliente. O "Dadinho" cresceu e "nasceu" daí o "Zé Pequeno", que viria a montar um império de distribuição de droga na favela, eliminando implacavelmente todos os que se interpunham no seu caminho.

Pelo meio, "Busca Pé" tenta "sobreviver" naquele ambiente, procurando pôr fim à sua virgindade e arranjando, sempre que possível, um meio de exercitar a sua criatividade e sensibilidade fotográfica, mas acaba por ser peça importante numa guerra de gangs, quando "Mané Galinha" decide fazer frente a "Zé Pequeno" e iniciar uma luta armada, sempre com a complacência da corrupta e apodrecida polícia brasileira.

Fernando Meirelles arranca aqui uma obra brutal, cujos actores foram obtidos através de "castings" pelas favelas. Ou seja, a autenticidade, brutalidade e naturalidade dos mesmos é algo que não se vê todos os dias no cinema, o que torna esta obra em algo tremendamente arrepiante de assistir, dado o quadro negro que Meirelles pinta da realidade na favela. Aqui, a palavra dos traficantes é lei e os polícias são facilmente comprados com favores e géneros de toda a espécie, a troco de um "fechar de olhos" ignóbil e nojento. Como resultado disto, temos cenas de uma carga dramática poucas vezes vista. Vejam, por exemplo, um puto ranhoso, com os seus 6 anos, que se apresenta ao "exército" de "Zé Pequeno" com a seguinte frase: "Já snifei, já chutei, já roubei e já matei. Já sou um homem".

Esta é a descrição crua do lado podre do Brasil. O lado que todos nós vemos, esporadicamente, nos jornais da noite, e onde Meirelles nos leva, aqui, numa visita guiada tão sádica como real e brutal.

O melhor: Toda a história, sem papas na língua. Atentem na cena do "tiro no pé". Visceral.

O pior: A sonoplastia, que volta e meia faz lembrar os filmes tugas.

Classificação: 9/10

3 comentários:

Sandra disse...

Estou a ver k continuamos de acordo,este filme está mesmo fenomenal...

Maria João Diogo disse...

Vi este filme em 2003 e deve ser dos poucos que me gravou sequências imagéticas completas na cabeça até hoje.

Não acho a violência gratuita (parece-me adequada à realidade que se pretende ilustrar) e agradam-me - muito - os traços característicos de realização do Fernando Meireles. Parece-me adequado que a câmara nos entonteça nos universos de dor que ele retrada :-)

Recomendo The Constant Gardener para quem gostaria de assistir a uma versão mais cómoda do brasileiro :-) O Ralph Fiennes é brilhante na interpretação - muita atenção ao plano apertado do seu rosto quando lhe dizem que Tessa morreu...

Edgar disse...

"Parece-me adequado que a câmara nos entonteça nos universos de dor que ele retrada :-)"

Uma belíssima frase que descreve bem o "modus operandi" de Meirelles.