25 de março de 2006

REVIEW
History of Violence

Ano: 2005
Realizador: David Cronenberg
Actores: Viggo Mortensen, Maria Bello, Ed Harris

Scanners, Videodrome, The Fly, Crash (o da pinocada, não o dos Óscares) são alguns dos dispares filmes de Cronenberg, uma espécie de génio incompreendido do cinema.
Agora deu-lhe na telha e virou-se para um filme rural, passado numa vilória qualquer da América profunda, onde um homem de família simples e trabalhador (estereótipo que, normalmente, me faz vomitar as tripas) se vê confrontado com um assalto no seu restaurante. Sob a mira de pistola, e num acto reflexo, rouba a dita cuja e consegue, num repente, limpar o sebo aos dois assaltantes, tornando-se uma espécie de herói local.
No entanto, o nosso herói permanece estranhamente calmo e sereno. Um homem rural, habituado a uma merdosa vidinha rotineira e que, de repente, mata dois mariolas, fica na mesma, quase como se nada fosse. E a coisa fica ainda mais negra quando alguns mafiosos de peso aparecem na cidade para pedir contas ao dito...

Cronenberg consegue aquilo que já alguém chamou como um filme de olhares. É uma coisa tão pastelosa como o ambiente rural que o caracteriza. No entanto, a densidade psicológica de cada personagem é magistralmente reflectida no olhar de cada um. A preocupação da mulher (uma Maria Bello sempre boa e sempre disposta a mostrar a carne), a aparente calma dele (Viggo Mortensen), a confiança do mafioso (Ed Harris) e a desconfiança do Xerife. Cronenberg guia os actores, qual bonecreiro, numa forma perfeita, de modo a que eles transmitam, com o máximo de exactidão, a palete de sentimentos que o realizador deseja.

É tudo muito apurado, muito direitinho, como aquele cozinhado que se quer no ponto e raramente aborrece. Pessoalmente, irritou-me um pouco o já referido estereótipo de família rural americana, mas pronto, era um mal necessário para que o argumento acabasse por arrancar. Além disso, e como é tão apurado, falta-lhe um bocado de risco, aquele "edge of your seat kind of feeling", mas pronto, se calhar sou eu que já não me impressiono com facilidade.
De qualquer forma, sempre temos algumas cenas "gore" à Cronenberg, deveras impactantes, e que ajudam o espectador a não dormir na cadeira.

O melhor: Os olhares dos protagonistas, janelas para a alma.

O pior: Aquele arquétipo de família americana, cada vez mais irritante e soporífero.

Classificação: 8/10

1 comentário:

Luis Monteiro disse...

Filmes dispares?! Discordo. As linhas mestras que definem o trabalho do Cronenberg estão presentes em todos os seus filmes, embora representadas de maneiras diferentes - relação homem/máquina, transformação, metamorfose, esquizófrenia, solidão, loucura, o grotesco, etc.
Abraço