6 de maio de 2006

REVIEW
Lord of War

Ano: 2005
Realizador: Andrew Niccol
Actores: Nicholas Cage, Jared Leto, Ethan Hawke

Yuri Orlov é um Ucraniano (na altura Russo) que cresceu nos tempos da Guerra Fria e que descobriu, nesses tempos conturbados, a sua verdadeira vocação: o tráfico de armas. E tornou-se bom como o caraças a fazê-lo, vendendo armas a amigos e inimigos, tomando partidos, apoiando facções, enfim... fazendo o que fosse preciso para vender mais e mais, independentemente do destinatário. E isto tudo com uma lábia digna do mais sagaz vendedor, capaz de convencer até os mais sádicos e implacáveis ditadores mundiais.

Com o tempo, o aumentar gritante do seu volume de negócios fez despertar a atenção das autoridades americanas, nomeadamente de um tenaz e honesto agente da Interpol (interpretado por Ethan Hawke) que, conforme diz Orlov, quer muito apanhar alguém que transgride a lei, como ele, mas não consegue transgredir a lei para o apanhar. No fim, o papel de Hawke reveste-se de particular importância, pois representa o bastião cadente do idealismo e integridade mundial, uma ilha de bons valores num mar de corrupção, mentira, podridão moral e falta de escrúpulos, que constitui a larga fatia do nosso mundo actual.

O papel de Nic Cage não é poderoso. Não se pauta por um grande dramatismo. Não chora. Sofre pouco. Aliás, Orlov atravessa quase todo o filme, através da sua narração, com uma subtil camada de humor que tem a dupla vertente de prender o espectador e de mostrar uma certa desculpabilização do mesmo para com os seus actos. Como o próprio diz, "guns don't kill people, people kill people!". No entanto, é dos melhores que se viu nos últimos tempos e que confirma Cage como um grande actor de filmes alternativos.

E se o filme começa e acaba com a mesma premissa (que as armas são más e que os governos são maus), o que interessa é mesmo o meio, uma viagem ao inferno da natureza humana, que atinge o clímax na cena final, e tendo quase sempre como palco a esquecida África, paraíso na Terra para estas párias (como Orlov) da ganância e da ambição desmedida, que financiam guerras intermináveis entre supostos "combatentes da liberdade", sempre perante os olhos fechados da comunidade internacional.
Mas o realizador não comete o pecado de se cingir às tragédias em África, alargando a praga do tráfico de armas a todas as regiões conflituosas que a história viveu nos últimos anos. Beirute, Moscovo, Jugoslávia, Libéria e Serra Leoa, por exemplo, são palcos dos negócios de Orlov. Embora nem todos os conflitos interessem, Orlov (e muitos outros) contam sempre com o beneplácito de esferas superiores de poder, às quais dá muito jeito ter homens como ele nas ruas a financiar conflitos.
Porque nem os esporádicos agentes da lei íntegros como Hawke são suficientes para travar os poderosíssimos lobbies que funcionam muitas hierarquias acima e cuja única preocupação é apenas engordar a conta bancária, não importa a que preço e cagar para o resto da humanidade.

O melhor: A leveza e humor da narração de Nic Cage, fundamentais para agarrar o espectador ao écran e para dar credibilidade à falta de escrúpulos do personagem.

O pior: Alguns anacronismos sem grande importância.

Classificação: 8.5/10

1 comentário:

Nero disse...

Epá desculpem lá estar a comentar um post que já tem dois anos mas esta critica muito boa e ainda não tinha nenhum comentário, talvez porque nem toda a gente tem esperteza tal para perceber tal filme... continuem!