6 de junho de 2006

REVIEW
V for Vendetta

Ano: 2005
Realizador: James McTeigue
Actores: Natalie Portman, Hugo Weaving, John Hurt

"Remember, remember the fifth of November..."

O filme começa logo com este mote, que pode parecer uma frase daquelas bem pirosas para colar a uma bem sucedida campanha de marketing mas que, na realidade, é muito mais que isso. Numa pequena lição de história que a minha amiga Wikipedia se encarregou de me ensinar, Guy Fawkes foi o principal responsável pela "Gunpowder Plot", uma conspiração que, em princípios do séc. 17, procurou assassinar o Rei e explodir com o parlamento.
Infelizmente, em alguns casos, a história tende a repetir-se e, quase 400 anos depois, em 2000 e troca o passo, o mundo viveu mais uma Guerra Mundial da qual resultou o declínio irreversível da outrora todo-poderosa América. Vergada ao peso de uma decadência inevitável, fruto de anos de arrogância e hipocrisia, surgiu das cinzas da guerra uma Inglaterra mandona e totalitária, nova potência do mundo, governada por um implacável fascista (num excelente e curto papel de John Hurt) que impõe rédea curta ao seu povo e faz do cultivo do medo a sua principal arma, através da manipulação dos factos e da informação (o que me suscita um certo dejá-vu...).

No entanto, um lutador obscuro, intitulado "V" e envergando uma carismática máscara de Fawkes procura instituir a liberdade num povo que há muito a esqueceu e se entregou ao conformismo do medo, através de actos "terroristas" que têm tanto de anárquicos como de libertadores, funcionando como autênticos despertadores de consciências adormecidas.

O autor da banda desenhada original, Alan Moore, demarcou-se da adaptação para cinema, alegadamente por considerar o personagem de "V" como alguém idealizado por americanos, fantasiando-o como lutador da liberdade contra um governo conservadorista quando a temática chave era mesmo a anarquia e o totalitarismo britânico num futuro próximo.

O que é mais fascinante neste filme é o facto da banda desenhada original ter surgido em meados dos anos 80 e, não obstante a antiguidade da mesma, é de uma actualidade gritante nos temas que aborda e no modo visionário com que nos dá um vislumbre de um futuro assustadoramente real. As analogias ao governo de guerra de Bush são constantes, as metáforas idem aspas e a forma como o regime Inglês é abordado no que concerne ao que o povo pode e não pode ver ou ouvir faz pensar no clima tecno-fascista para o qual parecemos caminhar, nomeadamente graças aos poderosos lobbies da RIAA/MPAA que começam a impôr, por exemplo, que paguemos por cada vez que ouvimos uma música, seja ela no carro, no PC ou no iPod...

Isto é apenas um exemplo. Agora, é discutível usar a anarquia enquanto forma de resolver os problemas do mundo. Mas que esta merda precisa de um abanão, precisa. No entanto, a anarquia funcionou muito bem para "V" pois as suas acções tiveram o condão de acordar um povo adormecido, numa dormência esmagadora instituída pela política de medo do governo (à semelhança do que acontece com os yankees).

"Porque as ideias não se destroem com balas. Neste caso, usam-se símbolos para destruir ideais. E porque o povo não deve ter medo do governo, mas o governo é que deve ter medo do povo." Enfim, podia continuar aqui a debitar clichés aparentemente moralistas que demonstrassem o quão maravilhado fiquei com esta porra mas a verdade é que este filme está recheadinho de boas ideias e seria um desperdício estar aqui a discuti-las todas pois nunca mais daqui saía...

O melhor: O brutal simbolismo do filme. As analogias e as metáforas. A personagem de V, carismática como o raio. Os efeitos especiais, poucos mas muito bons. Natalie Portman rapadinha. A cena dos dominós. Os diálogos deliciosos e sumarentosE muito mais...

O pior: Nada de importante...

Classificação: 9/10

1 comentário:

Jackson disse...

V de Vingança encontra-se no meu top mais delgado e selectivo. De 'brutal simbolismo' como afirmas, a película que catapulta Natalie Portman ao pedastal, é simplesmente brilhante!

Abraço