2 de novembro de 2006

REVIEW
Children of Men

Ano: 2006
Realizador: Alfonso Cuarón
Actores: Clive Owen, Julianne Moore

No futuro, e por andarmos a mexer indiscriminadamente no umbigo do planeta, as mulheres serão inférteis. E como facilmente compreenderão, sem fertilidade, a espécie humana... kaput!
Cabe ao nosso anti-herói, um funcionário público com uma consciência rebelde que se debate contra ela própria, salvar o futuro da nossa espécie após saber que a ex-mulher, agora líder de uma facção clandestina, protege a única grávida do planeta e precisa da ajuda dele para a levar até um sítio seguro.

Este será, sem dúvida alguma, o filme mais difícil de classificar desde que me lembro. Isto porque percorre tantos géneros, e fá-lo tão bem, que é impossível encaixá-lo numa só categoria. Bastam 10 minutos de filme e o realizador Alfonso Cuarón já nos pintou um futuro caótico, a apenas 20 anos de distância, numa Inglaterra anárquica e surrealmente caótica onde, por exemplo, convivem com alguma estranheza écrans de plasma em todas as esquinas com as mínimas condições de sobrevivência, num limite terceiro-mundista que é tão impressionante quanto aterrador, quando pensamos na veracidade de tal possibilidade.

A tecnologia é um acessório supérfluo e vão, colocado nas mãos de um governo britânico sequioso de poder e cujo único e fascizóide objectivo parece ser perseguir todos os imigrantes ilegais como se de baratas se tratassem, enviando-os para verdadeiros ghettos que quase relembram os horrores da Segunda Guerra Mundial.
Ora bem, não só o realizador enfia aqui, com toda a força, o dedo no cu da América inteira, ao mostrar-lhes aqui que existem motivações governamentais supérfluas que se sobrepõem às mais básicas necessidades da populaça (vide imigrantes / terrorismo vs. fertilidade / economia) como mostra, através de um engenhoso argumento, que a história tem sempre tendência a repetir-se, por mais que a humanidade julgue que aprendeu com os erros do passado.

O nosso herói (Clive Owen) vê-se, portanto, imerso quase por acidente no meio desta guerra, fazendo tudo para salvar a única mulher grávida do planeta nos últimos 18 anos e, ao mesmo tempo, tentando que a criança não caia nas ávidas mãos do governo, que faria dela um estandarte político.
Contando com a ajuda inestimável de um velho amigo, um hippie cool que trafica marijuana com sabor a morango (num papel magnífico e inenarrável de Michael Caine), Theo (Owen) safa-se como pode, em algumas sequências estupendamente bem filmadas, e que fazem lembrar o Pianista de Polanski rumo a um climax avassalador que deixa qualquer um preso à cadeira, numa cena de guerra que apenas encontra paralelo em Saving Private Ryan.

Alfonso Cuarón assina uma obra de estalo, inclassificável e, digamos até, deliciosamente anárquica pois, como já se disse, atravessa todos os géneros (romance, thriller, suspense, drama, comédia, acção - e que acção! - e até um surrealismo Dali-Kafkiano em algumas cenas) com uma mestria que a mim, pessoalmente, me deixou de queixo caído, pois nunca tinha visto ninguém a dominar tantos géneros de forma tão segura.
Então a cena final, em que Theo tenta salvar o bebé e a câmara o acompanha sempre, num plano lateral quase a fugir para o "close-up" é de uma eficácia invejável e afunda completamente o espectador na história.
Nesse período residem as mais espectaculares cenas de acção que me lembro, com os ouvidos a ecoarem com o fantástico som e os olhos a deliciarem-se com o sublime trabalho de câmara.
A fotografia é outro must absoluto. A predominância dos tons acinzentados e dos castanhos sujos dão a Londres um aspecto imundo, de um futuro que não queremos visitar.
Clive Owen é muito bom naquele seu jeito de herói contido, Julianne Moore tem pouco tempo de cena e Michael Caine está quase irreconhecível!

Mas o que ata todas estas pontas é, sem dúvida alguma, a realização à prova de bala de Alfonso Cuarón, e que torna isto num dos grandes filmes de 2006. Deixa muitas questões no ar e porá muita gente a pensar sobre a estrada que estamos a tomar na vida e o futuro que estamos a construir, de acordo com a forma como tratamos este planeta! Mai'nada!

Não cometam o erro crasso de perder este filme!

O melhor: A visão de futuro, a fotografia, Michael Caine e os "big balls" do realizador.

O pior: Vai passar despercebido nos cinemas, pois não foi suficientemente publicitado...

Classificação: 9/10

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