14 de novembro de 2006

REVIEW
The Departed

Ano: 2006
Realizador: Martin Scorsese
Actores: Leonardo DiCaprio, Matt Damon, Jack Nicholson

Dizem que, com este filme, Martin Scorsese "voltou à rua". Eu pergunto: que merda é essa? Voltar à rua? Ele é algum mafioso? Mais uma paneleirice de todos esses críticos pseudo-intelectualóides que por aí andam.

Isto é um filme de gangsters. Ponto final. Puro como uma água da fonte. E se Gangs of New York também o era, estava mascarado numa dúbia história de gente irlandesa cujas motivações, a mim, não me interessavam particularmente e cujo ritmo caracolento do filme fez-me coçar em intervalos regulares a minha floresta de pêlos anais.

E, num filme de gangsters, não poderia faltar o chefão, um verdadeiro "padrinho" contemporâneo que vê gravitar à sua volta um verdadeiro halo de poder que o deixa incessantemente impune a qualquer investigação, fruto das relações, digamos, "privilegiadas" que mantém com certas esferas de poder. Este homem é Jack Nicholson. E este homem domina o filme de princípio a fim, fazendo com que todas as outras interpretações, apesar de excelentes, pareçam diminutas perante uma tal presença no écran. Torna-se, portanto, fascinante, assistir à forma como Nicholson eclipsa as excelentes performances de Matt Damon ou Leonardo DiCaprio. Damon é o "filho" de Nicholson, infiltrado na polícia e DiCaprio um agente da polícia infiltrado na camorra de Nicholson. A dada altura, cada um sabe que existe um agente infiltrado no seu lado e tem que encontrar o outro... e matá-lo.

Quanto ao filme em si, basta dizer-se que é um rigoroso mimo e que tem o raro condão de agarrar o espectador desde o primeiro segundo, coisa que muito poucos conseguem. Mais uma vez, Scorsese não resiste à tentação de o esticar (são 2.30h) mas, ao contrário de ocasiões anteriores, aqui não temos a sensação de "enchimento de chouriços" pois há sempre um fio condutor que é cuidadosamente percorrido e onde todos os minutos são importantes para o desenrolar da história. Para isto contribuem e muito os soberbos diálogos, refinados ao máximo, e onde a personagem de Mark Walhberg (um implacável e rude sargento da polícia) se abarbata de uma larga fatia das melhores frases.
Exemplos:

"Who am I? I'm the guy that does his fuckin' job! You must be the other guy! "

E a melhor, à conversa com Alec Baldwin, esse grande ícone da 7ª arte que passa os filmes com as mãos na cintura:

"- Go fuck yourself.
- I'm tired from fucking your wife.
- How is your mother?
- Good, she's tired from fucking my father. "

Lindo, ah? É tudo assim, porco, badalhoco e só para maiores de 16. Vão gostar, portanto. É também um filme de uma violência atroz, com cenas deveras brutais, em especial o final. E tem também Vera Farmiga, essa actriz emergente e transbordante de saúde, no papel de psiquiatra da polícia que acaba por levar umas belas berlaitadas daqui e dali e que inunda o écran com a sua inacabável sensualidade.
É um filme de actores e é para não perder. O segundo melhor do ano. Pode ainda não ser desta que Scorsese leva o Óscar (o filme tem aquele "je ne sais quoi" que não agrada à Academia) mas parece-me que a Jack Nicholson já ninguém lhe tira mais esta nomeação para Melhor Actor...

O melhor: A história, o ritmo, os diálogos picantes... e Jack Nicholson!

O pior: Poder ainda não ser desta que Scorsese leva um Óscar.

Veredicto: Gangsteralhada para adultos!

Classificação: 8.5/10

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