9 de outubro de 2007

MASS REVIEW #4 - Frutos do desleixo

O blog anda desleixado e depois dá nisto... Algum tempo de absentismo resulta, forçosamente, em mais um chorrilho de reviews...

A Mighty Heart é uma obra com o dedo (e a mão inteira) de Angelina Jolie, pois ficou de tal forma interessada na história de Marianne Pearl que se apressou a comprar os direitos do seu livro para o adaptar ao cinema. A supracitada é, como se sabe, viúva do famoso Daniel Pearl, jornalista do Wall Street Journal barbamente assassinado por membros da Al-Qaeda e o filme retrata precisamente toda a cronologia de eventos que vão desde o seu rapto até à sua morte, dando especial ênfase ao sofrimento da futura viúva, grávida de alguns meses.
Mas o filme é mais do que isso e mostra bem as dificuldades que os serviços secretos paquistaneses têm em obter informações seja donde for, tendo que recorrer muitas vezes a métodos pouco convencionais (como a tortura) para arrancarem informações mais sensíveis de membros da Jihad ou outros resistentes capturados.
É um filme fluido, relativamente leve, imparcial (Jolie parece ter vontade de mostrar o mundo como ele é, e não apenas numa perspectiva pró-Bush), mas nem por isso vão, pois tem um conteúdo de reflexão ideal para deixar as mentes mais sedentas a marinar em questões pertinentes e que vai bem além de merdascas como esta sem conteúdo que pululam as nossas salas e estupidificam o espectador...

O melhor: O clima de tensão e de incerteza.
O pior: Infelizmente, já sabemos como acaba a história...
Veredicto: 7/10


Idiocracy é, como o nome indica, um filme idiota. É o filme que nunca iremos ver num cinema, nem até num clube de vídeo, porque foge aos cânones normais do género. Um americano médio, normal, que não se destaca em nada, mas pertence ao exército, "voluntaria-se" para uma experiência científica que o levará 500 anos mais à frente. Por essa altura, a América ficou toda burra como as portas, um ex-wrestler é o Sr. Presidente, substituiu-se toda a água por uma bebida isotónica, vende-se sexo nas lojas de cafés e o nosso herói é, CLARAMENTE, o homem mais inteligente à face da terra.
Depois de ver o filme, percebi porquê que apenas estreou em algumas salas de cinema. Porque diz mal dos americanos. E tudo o que diga mal dos americanos deve ser atirado sem piedade para as mais obscuras prateleiras dos videoclubes. E diz mal porque critica, de uma forma subtilmente inteligente e idiota, a partes iguais, o rumo actual da sociedade, onde ser-se culto é devorar "wrestling" ou "monster trucks" e onde "não fazer nada e seguir o que o outro diz ou faz" é uma arte e não um pecado.
Não é nenhuma obra-prima, mas quem gosta de filmes diferentes e está sempre atento aos OVNI's cinéfilos que são encostados a um canto apenas por serem diferentes não se vai arrepender de ver isto.

O melhor: É original, diferente e trata de coisas importantes.
O pior: É algo idiota e pode ser confundido com isto, o que seria mau, pois não têm nada a ver.
Veredicto: 6.5/10


1408 é um thriller de estalo, adaptação da obra literária do mestre Stephen King, que conta com John Cusack e o inefável Samuel L. Jackson como cabeças de cartaz. Cusack desmistifica aparentes fenómenos sobrenaturais e, num deles, faz o check-in num quarto assombrado de um hotel, mesmo no coração de New York, que se diz estar assombrado. Só que, ao entrar lá dentro, verifica que, se calhar, pode não sair de lá mais...
Não me lembro do último filme que retratasse tão bem um pesadelo do qual não se consegue sair. Tem partes más, de enchimento de chouriços (as cenas de flashback com a filha e a mulher), o que constitui a pior maleita de um filme, mas em 90% do tempo é claustrofóbico, stressante, angustiante, inquietante e dá-nos vontade de sair da sala de cinema só para não termos que levar mais com aquilo a mexer com o mais profundo da nossa mente reptiliana. Causa comichões no cu, suores, risinhos nervosos e, claramente, incomoda. O que, neste caso, é bom. Levanta a tensão de uma forma gradual, como um crescendo de uma orquestra que se prepara para o final apoteótico. E consegue. Não desilude. Não irá para o panteão da glória, mas não merece ficar ostracizado.
Cusack, que nunca se destacou verdadeiramente em nenhum papel, vive aqui atormentado o filme inteiro, atormenta-nos também, e deixa uma marca bem gravada na nossa mente, muito depois de sairmos da sala de cinema...

O melhor: Um dos thrillers mais bem conseguidos dos últimos tempos!
O pior: Não ver antes de ir dormir...
Veredicto: 7.5/10



2 Days in Paris marca o regresso de Julie Delpy, depois do estrondoso sucesso que foi Before Sunrise e Before Sunset, aqui como autêntica "faz-tudo": intérprete, realizadora, argumentista, produtora, editora, directora de fotografia, etc...
É a história de um casal recém-casado que, depois de umas desastrosas férias em Veneza, passam 2 dias em Paris, antes de regressarem aos Estados Unidos. Só que, nesses dois dias, muito pode acontecer e verdades escondidas podem vir ao de cima, como o azeite.
Imaginem um Before Sunset, por exemplo, mas com um ligeiro twist de limão. Foi a isso que me soube este filme pois, ao contrário do supracitado, não é sobre o conhecimento mútuo, mas sim sobre o que se segue, a vida a dois, a aceitação daquilo que o outro é, com todas as virtudes e defeitos e a certeza que, mesmo com eles, não vemos outra pessoa com quem queiramos partilhar a nossa vida. E, não obstante isto, o filme não tem nada de idílico, pois embora tenha momentos de comédia muito bem conseguidos, tem outros de drama palpável e real, onde quase acreditamos que aquela merda vai mesmo acabar mal para o casal.
Para a Julie Delpy, essa grande maluca com ar angelical (mas que deve ser uma doida na cama), vai aqui uma notita do escriba: o filme começa bem, com uma solidez argumentativa notável, mas vê-se que perde gás a meio e Delpy parece não saber bem o que fazer a partir daí. Recompõe-se, é verdade, mas o final acaba por não satisfazer por completo e não cumpre com o muito que se esperava após a primeira meia hora de filme. Mesmo assim, é altamente recomendável para namorados e para descansar das futilidades cinéfilas que invadem os multiplexes...

O melhor: A possibilidade que proporciona aos casalinhos espectadores de obterem uma salutar noite de berlaitada com as respectivas.
O pior: Em certa medida, perde-se a meio... e nunca mais se encontra.
Veredicto: 7/10



Grindhouse: Planet Terror é o outro opus da dupla Grindhouse, que viu em Death Proof a sua primeira entrega. E aqui Robert Rodriguez teve hipótese de, literalmente, soltar a franga, notando-se claramente que está a fazer aqui o filme que sempre quis fazer. Zombies, mortes, acção, sangue aos baldes e uma stripper renegada perneta com uma arma de guerra a fazer de perna.
Há aqui uma homenagem escarrapachada a filmes como Braindead ou Evil Dead mas, lamentavelmente, e para grande pena minha (pois esperava muito mais), nunca é tão sangrento como Braindead nem tão cómico como Evil Dead, caindo mesmo, em certas partes, num aborrecimento pueril inesperado. A melhor cena é mesmo no final quando um helicóptero varre, com as pás das hélices, dezenas de zombies que estão à frente, num festival de sangue que é, também ele no seu direito, uma barrigada de riso.
De resto, tem alguns apontamentos interessantes (como o "grande" barbecue no meio do nada), um elenco de luxo e uma Rose McGowan no papel principal com muita pinta, nomeadamente a partir do momento em que enfia a arma no coto da perna, mas nunca consegue ser tão satisfatório para as papilas do espectador como era Death Proof.

O melhor: A Cherry Darling e algum gore grotesco.
O pior: Não supera os filmes que pretende homenagear...
Classificação: 6.5/10

Sem comentários: